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A Cena
Teatro Nacional São João
de Valère Novarina
tradução e prefácio Isabel Morujão
ISAíAS ANIMAL: é verdade, ora diz-me lá, é mesmo verdade que a força que nos atrai e afasta nos faz ver o movimento amante do universo, e que quando estamos apaixonados encontramos num ápice o movimento estelar e a explosão asteróide - é verdade, ora diz-me, é mesmo verdade que o universo, que cada parcela do universo é inteiramente magnetizada - é verdade, diz-me, é mesmo verdade que só o tempo explica a linguagem e que ele a expande em drama no espaço? é verdade, diz-me lá, é mesmo verdade que cada palavra poderia tornar-se um objeto, se Deus o quisesse? Aqui mesmo, no momento presente. é verdade, ora diz-me, é mesmo verdade que o olhar que outro nos lança nos leva a ver, que o silêncio que outro nos empresta nos leva a falar? é verdade, diz-me, é mesmo verdade - é verdade que nesta peça tudo é verdade? Aqui mesmo no universo e no momento presente?
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A Morte de Danton
Teatro Nacional São João
de Georg Büchner
tradução, prefácio e notas de Francisco Luís Parreira
Mercier: Ouviste, Lacroix? A igualdade brande a sua foice por cima de todas as cabeças, escorre a lava da Revolução, a guilhotina republicaniza! As galerias aplaudem e os Romanos esfregam as mãos mas não dão conta de que cada um desses lemas é o estertor de uma vítima. Atentai nas vossas tiradas, agora que se fazem carne. Olhai em volta: isto é o que haveis dito. é a pantomima das vossas palavras. Estes desgraçados, mais os verdugos e a guilhotina, são as vossas arengas depois de ganharem vida. Haveis erguido os vossos sistemas como Bajazet as suas pirâmides: com cabeças humanas. Danton: Tens razão. Hoje tudo é feito com carne humana. é a maldição da nossa época. Agora também o meu corpo vai ser aproveitado.
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A Voz Enlutada
Teatro Nacional São João
de Nicole Loraux
Tradução de Manuel de Freitas e Prefácio de Marta Várzeas
"O teatro de Dioniso não está na Ágora. O que nesta simples frase se dá a entender sob a forma de uma constatação é muito mais do que uma constatação, se deixarmos claro que, no espaço cívico das cidades (poleis), é na Ágora, local por excelência do político, que tem geralmente lugar o teatro. De facto, ao escavar assim simbolicamente a distância entre o teatro e a política, pretendo logo de início marcar uma ruptura com as leituras apenas políticas, ou até apenas cívicas, que dominaram os estudos sobre a tragédia durante os últimos decénios. O vaivém entre uma certa percepção contemporânea da tragédia grega [] e o próprio texto da peça de Eurípides [As Troianas], em que se escuta a voz enlutada da tragédia [], obriga-nos naturalmente a levar o teatro a sério, a não o reduzirmos à sua suposta subordinação ao político e a compreender as suas exactas dimensões, quer literárias quer cívicas. A inteligência da tragédia grega começa pela do theatron, isto é, o teatro simultaneamente como local e como colectividade reunida, no espaço cívico e no tempo da cidade."
Nicole Loraux
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Airbnb & Nuvens
Teatro Nacional São João
de Luísa Costa Gomes
A peça é um palimpsesto. Arqueologicamente, a camada mais antiga é muito antiga, composta a partir das ruínas de projectos imaginados nos idos de noventa, inseridos, reconfigurados e rescritos em 2015 na intriga do elevador. Naquele tempo, vivíamos o regime do terror da dívida e estávamos bastante empenhorados. O mote era a fatalidade do empreendedorismo para os pobres e do conluio com o Estado para as empresas com poder de alavanca. Em 2019, a realidade objectiva das penhoras não melhorara muito, em alguns casos até se agravara (sobretudo em questões de dívidas pequenas no crédito ao consumo), mas não estava já no centro do pesadelo. O centro era uma almofada de nuvens e o airbnb.
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As Bruxas de Salém
Teatro Nacional São João
de Arthur Miller
tradução e prefácio de Fernando Villas-Boas
posfácio de Arthur Miller
"As Bruxas de Salém foi um acto de desespero." Nestas palavras, Arthur Miller sinaliza o paralelo que com esta peça quis traçar entre dois períodos negros de caça às bruxas na América: o do julgamento de homens e mulheres acusados de bruxaria na pequena comunidade de Salém, em 1692, e o do macarthismo, nos anos 1950, de que também foi vítima. Do seu epicentro um fascínio primevo pela paranóia, que sacrifica indivíduos na sua fúria colectiva alastra o medo, a força que a atravessa. A angústia das personagens sobrevém de não terem palavras para dizer a sua verdade, até mesmo na mais pura intimidade. A honra e o nome incandescem na prova de fogo do processo judicial: "Como posso eu viver sem o meu nome?", pergunta John Proctor. Puritanismo, manipulação política, vingança privada, delação, culpa achas que ardem no cadinho desta peça.
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As Criadas
Teatro Nacional São João
de Jean Genet
tradução e prefácio de Luísa Costa Gomes
Obra primeira, inaugural do transbordar de variantes na escrita dramática de Genet, As Criadas (1947) trata de um delito cismado, sonhado, ritualizado como uma missa negra. Duas criadas irmãs congeminam o homicídio da sua patroa, entregando-se a uma espiral de jogos de representação, espaço cerimonial de um sacrifício. Em 2016, instigada pelo encenador Simão do Vale Africano, Luísa Costa Gomes traduziu pela primeira vez em Portugal a "versão Genet", aqui publicada, que difere da chamada "versão Louis Jouvet", o texto da primeira encenação dAs Criadas, tornado canónico nas inúmeras representações da mais representada das peças do dramaturgo francês. Conta Genet que, na altura da estreia, um crítico de teatro fez notar que as verdadeiras criadas não falam como as da sua peça. "Pretendo o contrário", replicou. "Porque se eu fosse criada falaria como elas. Em determinadas noites. Porque as criadas só falam assim em determinadas noites."
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